Vai Malandra

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Anitta, de fato, é um fenômeno e atualmente parece ser a dona do caleidoscópio das referências audiovisuais brasileiras, com pretensão de ganhar mercados internacionais. O plano de Anitta se chamou “Check Mate” e o clip “Vai Malandra” encerrou o projeto. Se ela vai ganhar o gosto dos gringos, só o tempo vai dizer.
O que mais me chama atenção na cantora é a sua inteligência e insight para perceber a lógica mercadológica da cultura de massa. Sua relação com a indústria cultural é impressionante e tudo o que ela faz parece impactar, nós, obcecados por celebridades e novidades.
Vou comentar alguns tópicos que surgiram nos comentários, não para fechar a discussão, apenas para colaborar com as percepções sobre a artista e continuarmos a pensar na cultura audiovisual que vem aos nossos olhos-ouvidos-corpos-dançantes.
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O clipe.
Vai Malandra tem, obviamente, referências autobiográficas e Anitta usa isso como um dispositivo artístico. Ela veio de uma comunidade e sabe, portanto, representar esse universo, o que estabelece um vínculo mais amplo de identificação com seu público. Mostrar a favela “sem filtros”, no entanto, não deixou de romantizar esse espaço e torná-lo atrativo (e sensual) a quem nunca pisou em uma favela. O resultado é um lugar “texturizado” e com poucas representações de quem realmente vive nas favelas. Mas, trata-se de um clip e não de um documentário, assim, realidade e ficção encontram um espaço poético na criação, algo que não é nenhuma novidade no mundo artístico.
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O Funk.
Não percebo “Vai Malandra” como uma batida de funk e, para mim, que não sou nenhuma expert, o ritmo namora mais com o pop dançante. Aqui fica uma pergunta, o funk representa o Brasil ou o Rio de Janeiro? Existe algum estilo musical que represente todos os estados? Vai Malandra me parece mais um esforço para cair na graça da estética musical latina do mercado global.
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Feminismo ou pseudofeminismo.
A quem interessa esse contraponto? Nunca vi, ou li, nenhuma feminista endossar que as mulheres não podem fazer isso ou aquilo no sexo, com seus corpos, com a autonomia de suas vidas. O fato é que Vai Malandra sai do universo “paucentrismo” invertendo o jogo dos protagonismos e objetificações socialmente construídas.
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O corpo x o funk.
Nesse ponto, sou radical: deixem as meninas fazerem o que quiserem com seus corpos. Afinal, o que pode um corpo? de quem é o corpo? Aqui recomendo a leitura de uma matéria de Ivana Bentes, que saiu na Cult, enviada pelo querido Quéfren Crillanovickhttp://bit.ly/2BumOiV. O protagonismo das jovens mulheres explodiu da casca do ovo e ninguém mais vai segurar essa onda que vem em formato de tsunami. No funk, especificadamente, o corpo tem um papel libertador e são as meninas que comandam a festa. Aqui, lembrei de um artigo que transformou minhas percepções sobre o Funk, é de Aldo Victorio, pesquisador desse universo, super mega recomendo a leitura: http://bit.ly/2BZGrk2.
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A afroconveniência.
Bem, nesse ponto, o bicho pegou, para mim. Anitta, a alguns anos vem passando por um processo de branqueamento, com muitas cirurgias plásticas que descaracterizaram algumas marcas físicas de sua identidade intercultural. Quanto a isso, nenhum problema, e volto ao tópico anterior: de quem é o corpo mesmo? … mas, recorrer ao universo da identidade negra apenas quando convém, me incomodou. Usar os signos das mulheres afrobasileiras apenas quando convém me pareceu desonesto, afinal, é importante ressaltar que o lugar que ocupamos, e o que fazemos a partir desse lugar, é relevante e o que ajuda a combater as desigualdades. Anitta usa esse lugar para cair na “graça” de um mercado que adora tratar a influência negra em nossa cultura como algo excêntrico, exótico e circense, esvaziando lutas, assassinatos, violências, apagamentos, invisibilidades…
A mulher negra no clipe de Anitta, desde meu ponto de vista, ocupa o lugar onde se recriam os imaginários de um corpo que pode ser usado quando convém, quando é útil, para construir (manter) visualidades e estereótipos.
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Complexidade.
O que é inevitável nas reflexões que partem do trabalho de Anitta e, nessa discussão, é a complexidade que vem à tona quando pensamos no Brasil, nossa antropofagia mágica e as temáticas que surgem a partir das visualidades que (re)criamos e dos lugares que ocupamos nesses contextos. Creio que Anitta lançou um convite para contemplarmos nossas vidas imperfeitas, cheia de altos inimagináveis e mínimos reconhecíveis. As celulites de Anitta, por exemplo, fazem parte da vida de praticamente todas as mulheres e, me assusta, o susto. Parece que somente agora foi descoberta que o corpo da mulher é algo muito mais complexo que diria a van filosofia machista.

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